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112,46 km

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bei Lanceiros, Madeira (Portugal)

MIUT - Madeira Island Ultra Trail

Brutal, mas uma brutalidade de todo o tamanho...

O track tem algumas falhas significativas, para quem o quiser seguir...
To those who want to follow it, the track has significant errors...

Aqui fica o relato:

Íamos a caminho do Porto Moniz e as dúvidas eram muitas…
- Como o corpo ia reagir a um arranque noturno, de direta? Não iria ter sono?
- Não treinei corrida noturna, correr de noite com frontal era novidade para mim. Ia-me adaptar?
- Sei que treinei o melhor possível para esta epopeia, mas, ainda assim, o corpo iria aguentar? Toda a gente diz que o MIUT não é a prova ideal para uma estreia em provas de 100km…
- Quando entrar na segunda noite deverá ser um massacre psicológico, com tantas horas no “lombo”…
Perguntas e dúvidas naturais, mas que não abalavam minimamente a enorme determinação com que estava de enfrentar aquela monstruosidade.
Assim como na primeira Maratona de estrada que fiz, tinha bem definidos os objetivos pessoais.
Neste caso seria:
1º - e mais importante – terminar a prova;
2º - menos importante, mas o melhor cenário a equacionar – terminar em 24 horas.

O pré-partida deu-se em convívio e passou a voar. Quando dei por ela, era meia-noite e já estávamos a arrancar!
Comecei a sentir-me bem desde o início e tentei ao máximo controlar a frequência cardíaca a ritmos pouco eufóricos, pois os inícios são propícios a exageros e a fatura só chega depois. Ainda assim, nas frequências cardíacas alvo, estava a andar muito bem. Bom sinal.
Quando terminamos a descida até à Ribeira da Janela temos o segundo banho de emoção (o primeiro é a partida) ao ver toda aquela gente a apoiar vibrantemente. Do outro lado da ponte, olhamos para a descida que fizemos e apanhamos o famoso zig-zag luminoso… É muito mais espetacular do que qualquer foto, pois vemos toda a montanha iluminada com um zig-zag em movimento, preenchido pelas luzes dos frontais de centenas de atletas. Emocionante, mesmo. É nesta altura que me apercebo que não devo ir muito mal classificado.
Seguiu-se a subida até ao Fanal (mais de 1000metros d+) que fiz com grande à vontade. Já a subida de Estanquinhos (a pior de toda a prova, pois é de um declive demoníaco e interminável) não deixa ninguém intacto e deixou alguma mossa, mas, ainda assim, fiz de forma sólida, ultrapassando mais do que sendo ultrapassado, algo invulgar, pois, normalmente, as subidas são o meu “Calcanhar de Aquiles”. Nesta prova foram as descidas a pique, com degraus intermináveis.
Ao chegar a Estanquinhos, ponto crucial do percurso onde terminam os infernais primeiros 28km com 3000D+, encontro o Daniel e o Xavier, momento em que penso “Bem, talvez vá depressa demais, o Daniel é um atleta com outra capacidade que não a minha…” Mas ia num ritmo confortável e mantive a passada.
Na descida seguinte, apanho uma “desilusão positiva”… Tinha lido o blogue 42 e o Filipe Torres referia que esta descida era lindíssima e normalmente coincidia com o amanhecer, pelo que aguardava-a com expectativa. Fi-la toda ainda de noite… É nesta fase que começo a desesperar por tirar o frontal e o buff (detesto correr com “coisas” na cabeça) e nunca mais amanhece. 6:00 da manhã e nada. 6:30 e nada… Só às 7:00 começou algum clarão que trouxe outro ânimo.
Nesta altura estava no Rosário. Depois de uma parte do percurso da qual não tenho qualquer memória, chego à Encumeada, onde os postos de abastecimento já se assemelham a urgências hospitalares onde se pode comer qualquer coisa. Nunca vi tanta “malta” a passar mal como no MIUT. Eram uns atrás dos outros. Em colchões “estatelados”, no chão, em cadeiras com a cabeça caída sobre o bastão… Alguns autênticos “Zombies” que encontrávamos a meio do percurso, de mãos em baixo, sem expressão, mas a continuar a caminhar, lentamente… Perguntava se estava tudo bem e quase nem respondiam. E desde a queima das fitas que não via tanta gente a vomitar. Impressionante. “E estava eu impressionado com a quantidade de atletas com caimbras que vi em Serra D’Arga… Isto é mesmo outro patamar, nunca vi nada assim…”, penso.
É nesta fase do percurso que começo já a acumular mais desgaste e também a fase em que levamos com o famoso tubo. Tubo esse que, no dia anterior, nós tínhamos visto num passeio que demos de carro e toda a gente concordou: “Não pode ser aquele, ninguém sobe aquilo!” Afinal sobe… Subo o tubo a algum custo, sem a leveza das subidas anteriores e a ser ultrapassado, algo que interpreto como um sinal menos positivo… A subida até começarmos a descer para o Curral das Freiras é feita com uma paisagem fantástica, mas pareceu-me interminável.
Quando finalmente começamos a descer, apercebo-me que é um inferno íngreme de degraus até ao Curral. Chego lá a baixo, não arruinado, mas muito desgastado. As descidas no MIUT fazem tanta mossa como as subidas. Não pensei em desistir, mas foi o ponto em que me questionei se iria ter capacidade de aguentar todo o percurso, pois estávamos sensivelmente a meio.
O posto de abastecimento do Curral das Freiras é a coisa mais completa que eu vi até à data na minha curta história de provas. Aqui é o ponto onde pudemos trocar de roupa e, normalmente, onde os atletas optam por fazer uma refeição mais substancial. Aliás, aproveito para referir que nunca vi uma organização ao nível do MIUT, nem de perto, em todas as provas que fiz. Não falta nada. Fazemos 115km pelo meio da montanha mais agreste e nunca nos sentimos perdidos ou desamparados.
No Curral das Freiras, com 11 horas e 24 minutos de prova, volto a encontrar o Daniel, ele a sair, eu a entrar. Estava a sentir-se bem. Ainda bem. Logo de seguida chega o Xavier, momento em que juntamos forças e decidimos seguir juntos para o resto da jornada. Ficámos quase 1 hora no Curral das Freiras, entre reequipar, untar, ligar para a Família, comer… Do ponto de vista competitivo, obviamente foi tempo a mais, mas essa era a última das minhas preocupações.
Seguimos rumo ao último obstáculo hercúleo, a subida de 1200D+ em 10km até ao Pico Ruivo. Estava receoso com a reação do corpo à subida, após 60km desta dureza, pelo que decidi meter o “Modo Paisagem” – seguir ao melhor ritmo possível, mas, acima de tudo, desfrutando da paisagem, que se preparava para entrar na sua fase mais espetacular. A subida era duríssima e não dava descanso, mas, depois de Estanquinhos, nada parece suficientemente íngreme e, surpreendentemente, o corpo reagiu muito bem e conseguimos engatar num ritmo certinho, quase sem parar, até ao Pico Ruivo, passando muitos atletas pelo caminho. O pior estava agora para trás!
E o melhor começava agora, pois a travessia entre o Pico Ruivo e o Pico do Areeiro é o trajecto mais bonito e espetacular que alguma vez fiz na vida! Mas, ao mesmo tempo, de grande dificuldade, pois contém uma infinidade de escadas, em pedra, em metal, com grande inclinação, a subir e a descer, por entre aquelas escarpas do outro Mundo! Só lá estando…
Nesta altura estávamos também na companhia do Ondrei, um atleta checo que estava hospedado no mesmo hostal do Xavier e que encontrámos na Casa do Pico Ruivo em consideráveis dificuldades. Apesar disso, o rapaz aguentava bem o nosso ritmo e era uma grande abstração das dificuldades ir ali a conversar em inglês com ele.
No final da magnífica travessia, ao chegar ao Areeiro, apanhamos algum nevoeiro, o que não nos permitiu ver o local em toda a sua plenitude, algo imediatamente esquecido quando oiço uma voz familiar a chamar-me ”Herói acima das nuvens!” Era o Tiago Rosa que me tinha ido dar apoio ao Pico do Areeiro. Se não estivesse tão cansado e não tivesse mais 40km para fazer, desfazia-me ali em lágrimas… Estava ele, a Joana e a pequena Inês, o que permitiu descomprimir de todos aqueles kms nas costas, que já eram 75. O Rosas, com aquela determinação que só ele tem, filmava e fotografava tudo o que eu fazia, mesmo dentro do abastecimento, onde era suposto nem poder entrar... Impagável, nunca mais me esqueço disso!
Saímos do Pico do Areeiro com menos de 17 horas de prova, momento em que penso: “Faltam menos de 40km maioritariamente descendentes… provavelmente acabamos isto entre as 22 e as 23 horas.” Tss… Subestimar o MIUT… Da última vez que tinha subestimado alguma coisa na Madeira tinha sido o poder da Poncha e dei-me igualmente mal. Já devia ter aprendido.
Fomos descendo com os kms já ultrapassados a sentirem-se a cada descida em escada que tínhamos pela frente e os novos kms a demorarem muito mais do que queríamos a passar.
A subida para o Poiso era a última grande dificuldade e começava com 100 a 200 metros de d+ assassinos, ao nível de Estanquinhos. “Porque é que ninguém fala da subida do Poiso, com esta dureza e com mais de 80km nas pernas?” Vim a saber depois que nesta edição alteraram esta parte, tornando a primeira secção da subida muito mais agressiva.
Terminada a subida, outra surpresa retemperadora. Surge o Marco Silva que tinha vindo dar-me incentivo! Era surpreendente e fantástico sentir a “malta” conhecida a acompanhar-nos!
Saídos do Poiso, ainda de dia, era quase sempre a descer e salvo algum percalço, sentia que já não estava em questão conseguir terminar a prova, mas ainda achava que íamos fazer um tempo “canhão”!
Mas entretanto volta a anoitecer e as descidas revelam-se muito complicadas, sendo a do Larano outro martírio. As horas passavam e fomos reformulando a nossa previsão de chegada até chegar a uma altura que percebemos que estamos no limiar de não conseguir acabar antes de 24 horas. Foi nesta altura que, na zona da Vereda do Larano, largámos o Ondrei, que vinha mais em esforço, e corremos vereda fora… Mas o corpo já era um fardo de altos e baixos em que numa fase sentia que conseguia correr e de um momento para o outro, tinha que voltar ao andar rápido… O Xavier ia mais fresco e insisti para que arrancasse e esticasse nos kms finais, mas este fez questão de concluirmos em conjunto. A dada altura, percebemos que a meta das 24horas estava para lá de alcançável, momento em que a vontade de ainda correr desvaneceu completamente… Não que não conseguisse, se tivesse mesmo que ser, mas o cansaço era tanto que, não tendo mais objetivos para alcançar, só queria minimizar os estragos até final. Nesta altura, na levada final, já tinha acionado o modo “hooligan”, em que, em 4 palavras, 3 eram palavrões… Já só queria a meta à frente. Mas ainda houve tempo para alcançarmos um atleta francês que ia completamente sem força nas pernas, que faziam lembrar o zig-zag luminoso, acabando por cair em agonia mesmo à nossa frente. O Xavier prontifica-se a levá-lo em ombros, algo que este recusa e seguimos a vê-lo agonizar… Na descida final para o Machiço estatelou-se logo novamente. Faltava menos de um km e chegou cerca de 15 a 20 minutos depois de nós.
A 800 metros, assim que chegamos ao alcatrão, sou eu que puxo pelo Xavier, que vinha agastado com bolhas nos pés.
“Vamos correr, vamos acabar isto com estilo!” – E corremos confortavelmente até ao final, sendo ladeados pelas muitas pessoas que ainda estavam presentes na marginal do Machico a apoiar, até à emocionante entrada no corredor final que nos provava que tínhamos conseguido vencer este desafio gigantesco em 24h25min, o que, ao fim de contas, estava exatamente dentro das minhas melhores previsões!

Tínhamos concluído os 115km do MIUT no primeiro terço da classificação de um pelotão de nível internacional… Dá para acreditar?

2 Kommentare

  • Aurélio Farias 04.05.2017

    Muitos parabéns, li tudo, belo resumo de prova, dá vontade de fazer e mete muito receio tambem.,

  • Foto von iris:-)madeira

    iris:-)madeira 03.06.2017

    Parabens e obrigada pelo relatório detalhado :-)
    iris

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